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Narrativas & Storytelling: Na arena das próprias histórias (episódio II)

Atualizado: 5 de fev. de 2021


Escrevo esse texto enquanto “maratono” o “Feitiço do Tempo (Groundhog Day)” no canal Paramount, que desde as 6h11 da manhã, passa uma sessão atrás da outra, brincando com o tema central.


Este filme me proporciona de tudo um pouco, me diverte, me agrada como apreciadora de histórias bem escritas e, sobretudo, me provoca reflexões e novos olhares para as “mesmices” que assolam alguns dias e para o melhor aproveitamento dos convites que chegam em outros dias sugerindo que eu seja a minha melhor versão, que me ocupe em me tornar quem devo ser e me aproprie com inteireza do que me cabe realizar durante a minha jornada pessoal.


Para quem ainda não o assistiu, a história toda se desenvolve no dia 2 de fevereiro, dia da marmota, festejado anualmente em Punxsutawney nos Estados Unidos. Phil Connors, repórter meteorologista, protagonizado por Bill Murray, está na cidade para cobrir o destaque do festival que é o anúncio da marmota “meteorologista”, que também se chama Phil, sobre a chegada da primavera. Desta vez, ela não trouxe boas notícias, o inverno persistirá por mais algumas semanas e a nevasca continuará. E assim, inicia-se a jornada do protagonista que viverá o dia da marmota, “over and over”, num “loop” temporal, sem previsão de quando e se o “amanhã” fará parte do calendário novamente. Para tornar mais intensa a experiência, ele ficará confinado numa cidade que não lhe agrada e cobrindo, indefinidamente, um evento pouco interessante para o seu currículo, um dia daqueles que poderia ser considerado como “cumprindo a tabela”.


Num bar da cidade, conversa de balcão com desconhecidos, Phil lança a pergunta “O que você faria se estivesse preso em um lugar e todo dia fosse exatamente do mesmo jeito e nada disso importasse para você?” Um deles, levantando o copo de cerveja, responde com aquela frase clichê que “há pessoas que enxergam a parte cheia do copo, outras, a vazia, acho que você é a que enxerga a parte vazia”, referindo-se ao repórter.


Quem nunca se sentiu de alguma forma em Punxsutawney e teve que lidar com seu dia da marmota particular, num longo “dia 2 de fevereiro”, que parece que não vai acabar para chegar o “amanhã”? A grande questão é como cada um de nós lida com estas repetições. Prefere rechaçar o que incomoda ou procura entender do que se trata para se apropriar do que importa e seguir para o próximo capítulo?


Phil vive o dia da marmota muitas vezes (estima-se que foram 10 anos!) e de formas variadas, mostrando incessantemente seu descontentamento ou falta de aceitação por estar naquela situação. Até que ele resolve parar de brigar com o “hoje” e abraçar o que tinha para o momento. Passa a se ocupar do que podia com uma atitude renovada, um olhar atento e uma escuta ativa, nesta nova versão de si, pôde usufruir dos recursos internos que estavam adormecidos e se surpreender consigo mesmo.


Na arena das nossas próprias histórias, e é no plural mesmo, somos constituídos por aquelas que herdamos, algumas nos representam, outras não nos definem, de toda forma, elas fazem parte de quem somos e conhecê-las, nos permite decidir como, quando e se iremos utilizá-las na composição dos novos capítulos. Há também as que construímos a partir das nossas vivências e todas irão compor o menu da vida, com roteiros e desfechos dos mais diversos. Elas podem estar saturadas de problemas e de estratégias que não colaboram para gerarmos novas experiências.


Quanto menos investimos na compreensão desta constelação de narrativas mais sujeitos estaremos a viver o dia da marmota, na versão menos glamourosa, atribuindo ao contexto a razão das nossas insatisfações, reféns de histórias carentes de propósito ou que estão “entulhadas” de elementos que não promovem o resgate de potencialidades, habilidades e a construção de uma vida mais plena.

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